Em 1980 o Brasil vivia uma de suas crises econômicas. A inflação disparada, a falta de combustível nos postos, a esperança do álcool e o cansaço do governo militar faziam a economia perder mais tração. No entanto, as fabricantes de caminhões viam naquele momento uma oportunidade de investir para a demanda que teriam no futuro. E estavam certas.

Apesar disso o crescimento populacional mostrava que havia demanda para transporte, alimentos e necessidades básicas como energia, saneamento, o que movimentou a economia mesmo assim.

 

Assim a Volvo decidiu em 1977 erguer uma fábrica no país. Seria em Curitiba, onde fabricariam inicialmente veículos pesados e ônibus urbanos para um país que já tinha 121 milhões de habitantes. O primeiro caminhão a ser feito aqui era o N10, um modelo pesado com capacidade para levar 52 toneladas, motor turbo moderno e câmbio de 16 marchas.

Em 1979 a fábrica ficou pronta e em 1980 a primeira unidade do N10 deixava as linhas de produção. Tinha cabine Brasinca, motor turbo TD 100A de 263cv e câmbio de oito velocidades ZF Ecosplit (alta e baixa somando 16 velocidades), o N10 tinha moderno conceito de cabine semiavançada, interior ergonômico e novidades como o freio a ar com três sistemas independentes e direção hidráulica com esferas recirculantes, conceito usado no Ford Galaxie, que garantia leveza nas manobras.

Apesar do preço elevado o N10 garantiu seu lugar ao sol. Ou melhor, nas estradas. O N10 estava alinhado ao Scania LK140, também com motor turbo, e concorria com os maiores caminhões fabricados no Brasil à época como o Ford F22000, Mercedes-Benz LS1932, Fiat 190 e o Chevrolet D80. Porém o N10 era ágil, moderno e mais econômico que os concorrentes sendo especialmente requerido para grandes distâncias.

Na mesma época a Volvo expandia a linha para fabricar o B058, ônibus urbano de grande capacidade, usado em linhas de alta demanda em capitais como São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro.

O tempo passou, a linha Volvo cresceu e outros caminhões também ganhavam o motor turbo nos anos 1980. A Volkswagen ingressaria no segmento dos pesados depois, a Mercedes modernizaria seus caminhões, a Fiat deixaria o mercado e a Chevrolet ia perdendo espaço enquanto cresciam Volvo, Scania, Volkswagen e principalmente a Mercedes-Benz, presente em todos os segmentos, de leve aos pesados.

Mas aquele primeiro caminhão N10 chassi “001” acabou esquecido em meio a tantos outros rodando pelo Brasil. Só em meados dos anos 2000, a marca começou a procurar a primeira unidade. Por volta de 2005, o caminhão foi localizado pela concessionária de Santa Catarina, e então recomprado. A Volvo reintegrou o veículo ao seu acervo e para a Fenatran de 2019 o restaurou.

 

Foi recuperada a cabine, o interior foi totalmente refeito seguindo os padrões de época e a estrutura foi revisada e pintada. O motor, coração do N10, estava em grande forma, e nem precisou de restauração.

Assim em 60 dias o N10 1980 estava pronto para brilhar no estande da Feira. Quem sabe todos os clássicos ganhem esse privilégio um dia. A montadora segue procurando pelo caminhão mais antigo ainda em operação no país.

A história da Volvo no Brasil remonta o ano de 1933, quando os primeiros caminhões chegaram. A marca nova, fundada por Assar Gabrielsson e Gustaf Larson em 1926, queria abrir novos mercados por conta da recessão na Europa. O sucesso aqui foi tão grande que logo em 1936 a Volvo do Brasil foi estabelecida como importadora.

Nos anos 1950 chegaram aqui caminhões que ficaram marcados pela resistência e baixa manutenção como o L385 “Viking” e o L395 “Titan” que era conhecido como “Super Volvo”.

Estes motores eram os mais potentes da época: o 9,6 litros de 150cv e alto torque e se deram bem no Brasil. Na época, com poucas estradas asfaltadas, os pesados eram figura fácil rodando o Brasil de norte a Sul. A durabilidade mecânica e de suspensão asseguravam uma rodagem por milhares de quilômetros sem necessidade de manutenção.

Só nos anos 1970 quando os militares lançam o Programa de Benefícios para Estímulo às Exportações (Befiex), que abriu as portas para novos fabricantes de veículos. A Volvo decidiu por abrir a fábrica em Curitiba, e fez a estrutura seguindo os moldes da empresa na Europa sempre com foco no pós-venda e na logística para garantir disponibilidade de peças de reposição.