Fonte: Folha de S.Paulo
Postos receberam álcool (hoje etanol) a partir de 1979

 

O ano de 1979 não foi nada fácil para a indústria automotiva no Brasil. Ainda sob os reflexos da crise do petróleo de 1973, o país vivia sob ameaça constante de desabastecimento de gasolina. Postos ficavam fechados no final de semana e o governo militar estabelecia que as viagens na estrada tivessem velocidade máxima de 80Km/h, tudo para economizar gasolina. Alguns anos antes daquele fatídico 1979, saiam de linha os carrões com motor V8 como o Ford Maverick, e em breve a linha Dodge também se despedia na virada para 1980. Foi quando a Fiat, que fazia sucesso com seu pequeno 147, se transformaria na primeira montadora a anunciar a produção do carro a álcool.

Justiça seja feita, todas as montadoras preparavam seus modelos para rodar com combustível vegetal. Eles começaram a ser desenvolvidos em 1975 quando o Programa Nacional do Álcool (Próalcool) foi anunciado. O primeiro carro a álcool a ficar pronto foi o Dodge Polara, mas o Fiat 147 foi o primeiro lançado no mercado.

O Fiat 147 já estava a três anos no mercado e a modernidade do seu projeto era evidente. Tinha motor transversal, era menor do que o Fusca, oferecia ótimo espaço interno, suspensão independente e era bem econômico com motor 1.050 de quatro cilindros de 55cv.

A FCA reuniu a imprensa especializada para celebrar a data de 40 anos do Fiat a álcool. No mesmo galpão onde ele surgiu, em 1979, a Fiat reapresentou o 147 a álcool em uma das primeiras unidades produzidas. Na cor azul, era um modelo usado pelo governo federal como veículo de apoio, para transportar documentos. O carro depois de rodar 80 mil quilômetros foi deixado em um galpão até ser cedido para a Fiat Automóveis, que conserva este e outros clássicos como o primeiro Fiat fabricado em 1976.

O carro em si traz banco de courvim que é mais resistente que o tecido e era aplicado a uma boa parte dos carros destinados à frota como viaturas e automóveis de apoio.

O Fiat 147 abriu, como se sabe, as portas da Fiat Automóveis para o mercado brasileiro e inaugurou também o Complexo de Betim, na grande Belo Horizonte. “Enfim, um carrão pequeno”, era o mote de alguma de suas propoagandas pois ele era espaçoso por dentro e pequeno por fora.

O Fiat 147 tem diversas inovações ao seu favor. A partir da sua diminuta base, ele deu origem à primeira pickup derivada de um carro de passeio desenvolvida no Brasil. O modelo não tinha um nome propriamente e era conhecido como “Fiat Pickup”, depois “City” e só nos anos 1980 “Fiorino”, nome usado até hoje. Em 1980 chegou a perua Panorama, na época uma pequena station wagon junto com uma reestilização que modernizava o conjunto. Anos depois já com a nova frente Europa, a Fiat diversificava o 147 e lançava o Spazio, um modelo com melhor acabamento e o Oggi, um pequeno sedã.

O Fiat 147 teve seu melhor momento de vendas justamente entre 1980 e 1983 após sua reestilização. Ele saiu de linha cinco anos depois após conviver com o Uno, então uma das grandes apostas da marca Fiat no mundo.

Em testes o “cachacinha”

O Fiat 147 a álcool era testado nos arredores da fábrica de Betim, em pequenas cidades da grande Belo Horizonte e num antigo campo de provas que havia no Complexo de Gericinó, no Rio de Janeiro.

Na produção do modelo movido a álcool muitos protótipos foram feitos para adaptação do combustível vegetal para rodar no motor Fiasa.

Como na época, o etanol não era combustível vendido em posto de gasolina (isso só ocorreria a partir de 1979 e por determinação do governo que incentivava o programa do ProAlcool), os técnicos saiam com galões no porta-malas carregados de combustível e assim, poderiam reabastecer o veículo após longos quilômetros rodados.

Em algumas ocasiões a conta de quantidade de galões era feita de forma errada, até que em uma ocasião os engenheiros que ficavam em um local isolado com o carro resolveram abastecê-lo com cachaça mineira e para surpresa de todos, o Fiat 147 funcionou perfeitamente, o que deu ao carro o carinhoso apelido de “cachacinha”.

Mas nem tudo são flores. A equipe de engenharia até acertar o motor correto, teve bastante trabalho. O etanol é muito corrosivo e isso era prejudicial às peças do veículo. Foram anos de teste até que o modelo ganhou uma linha de produção e de 1979 a 1987 quando o carro foi descontinuado. O Fiat 147 a álcool emplacou 120.516 unidades.

Aliás a corrosão sempre foi grande vilã do compacto. Nos modelos a álcool várias peças e principalmente o carburador enferrujavam facilmente bem como a carroceria que era mais suscetível ao efeito. Por isso há tão poucos Fiat 147 rodando até hoje.